sexta-feira, 19 de março de 2010

Será o dualismo a resposta?

O Dualismo:

Nesta abordagem existem várias teorias diferentes, porém todas concordam que a natureza essencial da inteligência consciente está em algo não-físico, ou seja, que a mente é algo não-físico.

* Dualismo de Substância: Caracteriza-se pela concepção de que cada mente, bem como suas atividades e estados, limita-se a uma coisa ou substância não-física.

- Dualismo Cartesiano: Nesta a realidade se divide em dois tipos de Substâncias:

-Matéria-comum, que ocupa espaço, ou seja, tem comprimento, largura e altura.

-Razão Consciente = Pensar. Este tipo de substância não ocupa posição no espaço e não tem extensão.

Descartes era defensor da “Filosofia Mecânica”, porém, ele acreditava que a razão consciente do Ser Humano não podia ser explicada nos termos da mecânica da matéria. Por esse motivo propôs uma substância diferente, sem extensão ou posição no espaço, ao qual a característica principal era a atividade de pensar. Portanto no dualismo cartesiano o Ser Humano não se constitui do corpo material, mas sim dessa substância pensante e não-espacial. Essa substância não-física faz com que o corpo se comporte movido por propósitos.

A favor dessa concepção Descartes dizia que somente através da introspecção direta podia determinar ser uma substância pensante. Uma segunda razão seria a de que um sistema puramente físico não poderia chegar a empregar a linguagem de modo apropriado, nem mesmo raciocínios matemáticos. Uma primeira objeção que mesmo Descartes considerava um problema seria o de como essa coisa-mente sendo tão distinta da coisa-matéria causa influências sobre meu corpo, ou seja, como essa substância incorpórea pode ter influência sobre essa substância dotada de peso?

Atualmente nem é correto caracterizar a matéria como o-que-tem-extensão-no-espaço. Na teoria da gravidade de Einstein, por exemplo, toda estrela que passar por um colapso gravitacional completo pode ficar sem nenhuma extensão no espaço.

- Dualismo Popular: Seria a concepção de que existe um corpo material semelhante a uma máquina, e de que esse corpo é controlado por uma substância espiritual semelhante a um fantasma. Esse “espírito”, na maioria das concepções, situa-se na cabeça, perto do cérebro e apesar de ter sua constituição interna diferente da matéria física, possui propriedades espaciais.

A interação entre a mente e o cérebro pode ser compreendida em termos de uma troca recíproca de energia, e talvez a coisa-mente seja uma manifestação dessa energia. Assim torna-se possível que o dualismo seja compatível com as leis da conservação da energia e da quantidade de movimento. Esta concepção é bastante atraente devido primeiro: por que mantém a possibilidade de que a mente sobreviva à morte do corpo. Porém não garante que isso ocorra, pois essa forma peculiar de energia que supomos constituir a mente é sustentada somente em conjunção com a complexidade do cérebro.

* Dualismo de Propriedade: A idéia básica dessa teoria seria a de que embora não haja uma outra substância, além do cérebro, este é dotado de um conjunto especial de propriedades. Diferentemente do Dualismo de substância, no qual a substância não-física é independente do corpo, no Dualismo de Propriedade essas propriedades especiais não-físicas provêm do corpo, mais especificamente do cérebro. Daí surge diferenças entre as diversas posições.

- Epifenomenalismo: O prefixo grego “epi” significa “acima”, desse modo os fenômenos mentais não constituem parte dos fenômenos físicos, mas estão acima destes. Epifenômenos seriam, portanto os fenômenos mentais. Esta posição afirma que os fenômenos mentais só se manifestam a partir do momento em que o cérebro em desenvolvimento ultrapassa certo nível de complexidade. E embora os eventos mentais sejam determinados pelos eventos físicos do cérebro, eles, por sua vez, não possuem quaisquer efeitos causais, ou seja, são completamente impotentes quanto a influências sobre as atividades do cérebro. Portanto estaríamos enganados ao afirmar que nossas ações são determinadas por nossos desejos, volições e decisões. Os eventos físicos causam os epifênomenos, bem como determinam nossas ações.

Do ponto de vista das pesquisas de um neurocientista que busca traçar as origens do comportamento exclusivamente através das atividades físicas do cérebro, essa concepção parece ser levada a sério. Porém, esse mesmo neurocientista não pode descartar o testemunho de sua própria introspecção. O epifenomenalista admite um meio-termo em respeitar uma abordagem rigorosamente cientifica da explicação do comportamento e o desejo de respeitar nossa introspecção.

- Dualismo Interacionista da Propriedade: Esta concepção difere da anterior por um aspecto primordial: o de que as propriedades mentais têm efeitos causais sobre o cérebro. Portanto nossos desejos, crenças e decisões causam nossas ações/comportamentos.

Do mesmo modo que a concepção anterior, essas propriedades mentais são consideradas como propriedades emergentes, já que só se manifestam quando a matéria física alcança certa complexidade através do processo evolutivo.

Se essas propriedades não-físicas/mente provêm do cérebro, então por que chama-lo de dualismo? Este é o ponto principal dessa teoria, pois é dualista no sentido de que jamais pode reduzir a mente ou explicá-la em termos dos conceitos das ciências físicas habituais, ou seja, a irredutibilidade das propriedades mentais é o que torna essa posição dualista. Porém, daí surge uma contradição, pois, como falar que a mente emerge a partir de nada além da organização concreta da matéria física e ao mesmo tempo negar que sua descrição física seja possível?

- Argumentos em favor do Dualismo:

Argumento da Religião: As religiões, a seu próprio modo, são uma teoria sobre as causas e os fins do universo, bem como se comprometem com a idéia da imortalidade da alma (portanto com o dualismo de substância). Esse argumento ganha bastante força, visto que se formos descrentes do dualismo, consequentemente estaremos negando nossa herança religiosa, o que de certo modo é intolerável para a maioria das pessoas.

Aqui as Forças Sociais são determinantes primários da fé religiosa, e decidir adotar a ortodoxia religiosa às questões científicas seria o mesmo que substituir as provas empíricas pelas forças sociais. Ou seja, a ciência com suas provas empíricas é totalmente velada quando tratamos das religiões que ganham força coma a fé das pessoas. Por esse motivo os profissionais da filosofia e das ciências interessadas em conhecer a natureza da mente põem as religiões “de lado”.

Argumento da Introspecção: o fato de que ao nos concentrarmos sobre os conteúdos de nossa consciência, não captamos nenhuma das atividades físicas do cérebro, tais como a rede neural pulsando com atividade eletroquímica, mas ao contrário disso, apreendemos sim um fluxo de emoções, pensamentos, e desejos. Porém este argumento é bastante suspeito ao supor que nossa observação interior ou introspecção revela as coisas como elas realmente são, visto que sabemos que nossas outras formas de observação (visão, tato, audição) não são capazes disso. Alguns exemplos interessantes são o do calor do ar do verão que não parece ser a energia cinética média de milhões de minúsculas moléculas, mas é isso que ele é; a nossa água de cada dia que não vemos como dois átomos de Hidrogênio e um de Oxigênio, mas é isso que ela realmente é.

Argumento da Irredutibilidade: Os Qualia, ou seja, as qualidades introspectivas de nossas sensações e o conteúdo de significação de nossos pensamentos são fenômenos que resistem a uma redução ao físico. Por exemplo, um físico ou um químico poderiam saber tudo sobre a estrutura molecular da rosa e do cérebro humano, mas jamais estaria apto a prever ou antecipar o Qualia dessas experiências inexprimíveis. Um exemplo que refuta essa irredutibilidade seria a calculadora cuja capacidade de raciocínio matemático supera em muito a do Ser Humano quanto à parte de cálculos. Essa realização é importante na medida em que invadem as áreas da razão humana nas quais os filósofos dualistas do passado acreditavam ser impossíveis se limitar a dispositivos físicos. A própria noção de linguagem decomputador tem como fundamentação que a nossa linguagem e conteúdo podem ser mais complexas que as “linguagens artificiais”, mas que essa diferença só se dê em graus e não em espécies.

Também em favor do dualismo são citados os fenômenos parapsicológicos, tais como a telepatia, a clarividência, entre outros. Que por sua vez são considerados fenômenos mentais enquanto se mantiverem para além de uma explicação física. Porém, por serem reais isso não significa que sejam completamente refratários a uma explicação puramente física. A telepatia, por exemplo, já tem sugestões dos materialistas que têm como opinião que o pensamento é uma atividade elétrica no interior do cérebro, no qual através de um processo eletromagnético que produz ondas, estas podem ter efeitos sobre a atividade elétrica de outros cérebros. Essa não é uma explicação definitiva utilizada pelos materialistas, mas de certa forma uma crítica para que os dualistas tenham formas mais sistemáticas, incontestáveis e reprodutíveis que comprovem tal fenômeno. E apesar de todos os pronunciamentos acerca de tais fenômenos não se tem certeza de que sejam verdadeiros, já que inexistem efeitos parapsicológicos que possam ser reproduzidos repetidamente, de modo a serem comprovados com experiências.

- Argumentos contra o Dualismo:

Argumento da Simplicidade: deve-se escolher a mais simples das duas hipóteses, não se multiplicando entidades além do estritamente necessário para explicar os fenômenos. O materialista postula somente um tipo de substância (a matéria física), enquanto o dualista postula dois tipos de substância (uma física e uma não-física), aos quais não trazem nenhuma vantagem explicativa. Nenhumas das duas correntes podem explicar os fenômenos em questão, porém a objeção dos materialistas tem fundamento, visto que não há dúvida que a matéria física existe, enquanto a matéria não-física não.

Argumento da Impotência Explicativa: onde o neurociêntista detém conhecimentos acerca do cérebro, de sua constituição e das leis que o governam. Os neurocientistas já podem explicar boa parte do nosso comportamento por meio das propriedades elétricas, físicas e químicas do cérebro. Enquanto isso os dualistas não podem explicar acerca das conexões estruturais entre a mente e o corpo, nem nos dizer algo sobre a constituição dessa substância “espiritual” ou sobre as leis que o governas, entre outras explicações essenciais para o bom entendimento do problema ontológico.

Argumento da Dependência Neural: Afirma-se que nossos estados mentais são dependentes do cérebro. Esse argumento é exemplificado pelo uso de narcóticos, álcool, ou mesmo pela degeneração senil de tecidos nervosos que danificam, incapacitam ou mesmo destroem nossa capacidade de pensamento racional. Outro exemplo bem cotidiano seria a indicação de produtos químicos feita por psiquiatras para controlar as emoções. Simultaneamente o dualismo de substância é descartado.

Argumento da História Evolutiva: “Cada espécie existente é um tipo sobrevivente que provém de uma série de variações de um tipo mais primitivo de organismo: cada tipo mais primitivo, por sua vez, é um tipo sobrevivente que provém de uma série de variações de um tipo de organismo ainda mais primitivo; e assim, retrocedendo pelos ramos da árvore evolutiva, por cerca de três bilhões de anos, encontramos um tronco constituído por apenas um punhado de organismos muito simples.” (pág.46). O que estrutura o mecanismo de desenvolvimento dessa árvore é a variação cega ocasional que ocorre nos seres reprodutores, bem como sua sobrevivência seletiva em razão das vantagens reprodutivas. Nossa peculiaridade em relação à história da evolução consiste no fato de todas as nossas características físicas resultam de um processo puramente físico. Somos dotados de sistema nervoso igualmente a todos os organismos, porém o nosso é mais complexo e potente, o que torna possível uma orientação discriminativa do comportamento. Somos criaturas constituídas por matéria e nossa natureza interior difere dos organismos mais simples em grau, mas não em gênero.



Reflexão baseada no livro "Matéria e Consciência" de Paul M.Churchland.

Um comentário:

  1. "Porém, daí surge uma contradição, pois, como falar que a mente emerge a partir de nada além da organização concreta da matéria física e ao mesmo tempo negar que sua descrição física seja possível?"

    Seria contradição mesmo? Emerge de algo organizado realmente? Pelo menos na mesma organização e momento em que a descrição é feita?

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